Teatro perde Louzadinha
25/02/2008

O teatro brasileiro está de luto: morreu nesta sexta-feira, 22 de fevereiro, o ator Oswaldo Louzada, aos 95 anos. O SATED-RJ recentemente homenageou o ator e sua trajetória no teatro brasileiro como o primeiro entrevistado do Memória-Mestres, projeto que registra em DVDs depoimentos de personalidades importantes para as artes cênicas do Brasil.

Louzadinha foi uma dessas personalidades. Por isso, o ator mereceu uma página da Edição de janeiro/fevereiro de 2008 do Boca de Cena, Jornal do SATED, onde falou da sua longa história no teatro brasileiro. Para reverenciar sua memória, reproduzimos a última entrevista de Louzadinha.

O começo:

O pai de Louzadinha era engenheiro elétrico e apaixonou-se por teatro após uma temporada em Berlim. De volta ao Rio, foi ao Teatro Apolo e pôs em prática tudo que aprendeu na Europa. Mudou toda a luz da casa e não parou mais: fez a reforma dos teatros São Pedro, São José, Carlos Gomes... Tinha uma oficina de fundo de quintal, onde produzia o material e, com o tempo, passou a oferecer o equipamento e pessoal para operá-lo.

Na década de 1920, perdeu tudo no incêndio do Teatro Carlos Gomes — estava em cartaz a revista Guerra dos mosquitos. Louzadinha acompanhava os passos do pai e ficava fascinado, sempre curioso com os efeitos de luz. Sua estréia foi antes dos 10 anos, na peça O mártir do calvário, em que interpretava um anjo que aparecia no fim do espetáculo; tinha uma única fala. No elenco, a grande Itália Fausta. A avó de Louzadinha era sua grande incentivadora e fã — enquanto pôde, manteve atualizado um álbum com tudo sobre as atividades do neto.

O reconhecimento da profissão

Entre muitas lembranças, Louzadinha fala com muito carinho e riqueza de detalhes sobre o reconhecimento da profissão e a fundação do Retiro dos Artistas. Ele conta que a ação pelo reconhecimento começou quando Leopoldo Fróes, recém-chegado de uma temporada na França, hospedou-se num hotel e, ao preencher a ficha, escreveu que era artista. O gerente, então, o interpelou, alegando que “ator não é profissão”. Indignado, Fróes publicou um artigo na primeira página do jornal A Noite e sensibilizou o então deputado Getúlio Vargas, que elaborou lei reconhecendo a atividade profissional.

“A regulamentação só aconteceu em 1978, mas esse fato foi o começo”, comenta Louzadinha. “Havia muito preconceito. Uma Comissão, formada por mim, Candido Nazaré, Leopoldo Fróes, Iracema de Alencar e mais outros tantos foi ao Getúlio. Nós trabalhávamos de segunda a segunda-feira, com várias sessões diárias e ensaios após os espetáculos. Os empresários chiaram, mas o apoio de Dulcina foi muito importante e deu força para que tivéssemos folga às segundas. Os empresários chegaram a dizer que as folgas inviabilizariam as produções. Getúlio mandou-os mudar de ramo e disse que, se fechassem os teatros, o governo mandava abrir.”

A aposentadoria e a criação do Retiro dos Artistas

O pai do ator foi um dos fundadores do Retiro dos Artistas. Louzadinha, aos 6 anos de idade, também estava presente. “A maior lembrança que tenho do dia da fundação foi que tomei tanta soda e comi tanto doce, que passei mal”, recorda. Leopoldo Fróes havia demonstrado grande preocupação com o futuro dos artistas — ator ganhava pouco, dava figurino, maquiagem, trabalhava demais.

Louzadinha conta que Fróes comentou essa preocupação com um amigo alemão, que morava no Brasil e, sensibilizado, doou parte de um terreno em Jacarepaguá para a construção do Retiro. “Para começar a construção, fizemos uma campanha. Íamos eu, Silva Junior, Francisco Moreno, Maria Amorim, aos domingos, para os teatros vender broches de tecido em forma de flor. Os broches eram feitos pela minha avó, com o dinheiro que meu pai dava. Assim, arrecadamos alguma quantia para começar. Lembro-me que a Casa dos Artistas era muito longe. Pegávamos trem até Deodoro e bonde até a Pechincha, mas o grande problema mesmo eram os mosquitos...”

O Retiro foi mobiliado com doações. Procópio deu um quarto e uma sala; Beatriz Costa, também. Jayme Costa deu um quarto, e assim foi. “Alguns empresários também ajudaram”, diz Louzadinha, que exerceu, mais tarde, a função de conselheiro do Retiro. “Eu mesmo não me preocupava muito com isso.” Numa ocasião, quando fazia uma peça com Sadi Cabral, que estava às voltas com sua aposentadoria, Louzadinha verificou que em sua carteira de trabalho havia falhas de anotações. Com o Manual da Previdência nas mãos, soube que provas administrativas serviriam para atestar tempo de serviço. Nessa hora, o álbum feito com dedicação pela avó foi muito útil. Ali estavam todos os passos do ator, todos os trabalhos. E, assim, Louzadinha provou que tinha exatos 36 anos, 9 meses e 11 dias de trabalho, e pôde se aposentar.

A carreira

Louzadinha recorda-se de algumas passagens de sua carreira. Seu primeiro trabalho na TV foi em Câmera 1. Era uma peça inteira, ao vivo, com uma só câmera. “Parecia uma novidade, mas era falta de material mesmo. Só dava para ter um cenário.”

No teatro de revista, atuou ao lado de Oscarito, Pedro Dias e Aracy Côrtes, e trabalhou em espetáculos de outros gêneros com Procópio Ferreira, Vicente Celestino, Mário Lago, Alda Garrido. Lembra-se que fez uma prova (sic) para o elenco de Meia noite e trinta, de Luiz Peixoto, e, ao ser aprovado, soube que era por ter “parecido cínico e falado alto”. Foi galã de Fernanda Montenegro e fez temporadas em Portugal e Paris. O ator mostra fotos surpreendentes e diz que, na época, não havia maquiadores, e os atores eram responsáveis pela caracterização.

Sobre o “ponto”, explica que não era, como muitos acham hoje, um profissional que ficava falando o texto da peça para o ator. Quem fazia o ponto acompanhava os ensaios e só dava dicas aos atores naquelas passagens em que eles tinham alguma dificuldade. “Só recebíamos as falas de nossos personagens e as deixas. As companhias tinham repertório extenso e fazíamos uma peça por semana, então o tempo de ensaio era pouco.” Como não havia adaptação, os textos estrangeiros vinham traduzidos para o português de Portugal, por isso, “por muito tempo, parecia que tínhamos sotaque português, usando muito ‘tu’, em vez de ‘você’, por exemplo”.