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Tropa da elite?
22/10/2007
A caminho de se tornar uma das maiores bilheterias do cinema brasileiro e filme mais polêmico dos últimos tempos, Tropa de Elite tem como grande mérito cinematográfico resumir com competência em uma hora e meia a crueza da violência que infelicita diariamente a vida de milhares de pessoas e uma das maiores mazelas do país.
O filme dá ao combate aos traficantes o ponto-de-vista da polícia, no caso o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da PM do Rio de Janeiro. Todos sabemos que a polícia é um agente do Estado, que existe e se organizou com o objetivo de proteger e servir ao cidadão. Respaldada nas suas atribuições de Estado, em última análise representante da sociedade, a tal tropa de elite atua com essa função à caça aos bandidos utilizando todos os recursos policiais, valendo-se, inclusive, da tortura física e psicológica.
Responsável por apenas 1% das ações da PM do Rio, o Bope só age em casos muitos especiais. Por isso, é chamada de Tropa de Elite. O restante do tempo o carioca tem que conviver com a tropa convencional despreparada e corrupta, na própria visão dos integrantes do Bope. Afinal é Tropa de Elite ou dá elite já que só entra em ação em casos que fogem o cotidiano das pessoas? Na prática, o filme mostra que o Bope é ineficaz no combate ao crime e desmoraliza de vez o restante da corporação.
Tropa de Elite retrata o caldeirão social em que está inserida parte considerável da população do Rio. Polícia corrupta e violenta, traficantes de tóxico que não tem mais medo do Estado, cidadãos indefesos no meio do tiroteio, consumidores de drogas, falta de emprego, educação, saúde e habitação, muita miséria. O barril de pólvora está aceso não é de hoje.
O filme não é de direita ou de esquerda. Não é favor disso ou daquilo. O filme apenas retrata a realidade. Essa guerra sem fim é noticiada diariamente pelas rádios, tvs e jornais, nada diferente do que o filme mostra. É de se estranhar que um filme que mostra condensado o que a mídia expõe à exaustão todo dia-a-dia faça tanto sucesso. Será que as pessoas precisam da arte para legitimar um problema que salta aos olhos? Por que o povo consumiu com tanta avidez a fita pirata do filme? Será que buscava o herói salvador no capitão Nascimento?
O sucesso do filme dá um recado claro e direto aos nossos governantes: o povo quer soluções para o problema da violência. O filme passa longe de apontar alternativas e nem é esse o objetivo da arte. Mas quem assiste faz suas interpretações. O pensamento médio do cidadão brasileiro quer combater a violência com mais violência. Não vê nas autoridades e poderes constituídos moral para enfrentar o problema. É só acompanhar os escândalos de corrupção no parlamento, governos e iniciativa privada e o descrédito que isso gera na opinião pública.
O debate sobre a violência no Brasil não é de hoje. É evidente que o poder público precisa investir em educação, saúde, emprego para diminuir a miséria e conter o exercito de jovens carentes que são envolvidos pelos acenos de dinheiro rápido do tráfico. Enquanto isso não acontece, ficaremos só na discussão? Ou vamos esperar outro filme sobre o mesmo tema entrar em cartaz para avaliar se o bonequinho gostou ou, dependendo da situação, se ainda continua vivo?
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